sábado, 20 de maio de 2017

LEITURAS DE ABRIL/17


Abril... Normalmente, confesso, odeio esse mês. Há alguns anos ele tem sido o mês da descida da montanha russa da minha vida. Os três anteriores são os momentos iniciais do carrinho correndo nos trilhos, incluindo a subida. Abril é a queda livre, o frenesi, o rebuliço no estômago, a adrenalina que você não consegue decidir se é bom ou ruim. A minha meta é chegar lá na frente e olhar para ele e ver que dessa vez foi um mês diferente. O que posso dizer agora é que foi corrido, e surpreendentemente cheio de fatores externos, e apenas dois livros lidos. Dois livros que representam ao mesmo tempo coisas boas e coisas ruins. Um sobre um término de relacionamento, um sobre o recomeço. Foi interessante. E basicamente, por enquanto, é o que tenho a declarar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

CARTA DO FUTURO #1

Quinta-feira, 19 de Maio.

Essa noite, após chegar em casa, eu estava divagando sobre quando eu era mais jovem e li aquele livro com as cartas do futuro. No livro, o garoto fazia exatamente o que estou fazendo agora e achei que seria importante te dizer e deixar saber de algumas coisas.

Hoje, quando voltávamos para casa, você estava sentado ao meu lado, no banco do carona, bem calmo, lendo aquele livro que comprou há três dias e não quer mais soltar. Você sempre foi um leitor rápido - bem mais do que eu - mas se agora ainda está para alcançar a metade da história, que tem no máximo umas quinhentas páginas, é por causa da nossa rotina um tantinho apertada que só te deixa ler por entretenimento nas viagens de volta para casa - quando eu venho dirigindo. 

O trânsito, como sempre, foi infernal. Eu, como sempre, fiquei irritado. Você, como sempre, só ria silenciosamente da minha frustração desnecessária. Eu olhei para o lado - para você - e revirei os olhos porque sabia que você se divertia com meus ataques nervosos. É uma das coisas que ainda me faz te amar depois de todos esses anos que estamos juntos: o modo como você consegue me fazer sorrir, ainda que internamente quando eu quero ser um furacão por fora. 

Percebo o quanto nos cansamos do trabalho e o quanto você anseia pelos fins de semana, pela nossa casinha linda no interior, a qual você construiu e trabalhou dedicadamente para estar à altura da sua perfeição - do jeitinho que você me disse que seria naquela noite em que, depois de fazermos amor em seu quarto, nos deitamos juntos à luz dos pisca-piscas fora de época e você detalhou boa parte do nosso futuro. 

Eu confesso que fiquei com um pouquinho de medo ali. E confesso que ao mesmo tempo quis pular exatamente para este momento aqui, agora, em que estou te escrevendo isso. Mas depois de tudo o que passamos, e o que ainda vamos passar, eu vejo que o futuro sempre se renova -  que as pequenas metas que estabelecíamos desde o começo, como assistir aquela série de TV sobre garotas colegiais norueguesas etc, essas coisas, são a nossa motivação para continuar. E olha só onde estamos agora e o que ainda temos para fazer. Todo esse caminho faz parte do processo que nos trouxe até aqui e ainda vai nos levar à muitos lugares. Então agora eu vejo o quão bobo eu fui por querer simplesmente pular para esse momento.

Sei que nem tudo foi ou será perfeito e fácil, mas nós somos engrenagens em rotação. Nos encaixamos e nos entendemos e aprendemos a ser companheiros um do outro em todos os momentos, e isso tem sido o suficiente para nós. O medo que senti foi bom, porque despertou coisas em mim que há muito estavam adormecidas. A cada pedacinho de futuro que idealizávamos era um gás a mais nos balões que nos trouxeram até aqui.

Eu sempre tive medo de não ser balão. Medo que ser a pedra que segura a sua cordinha e te prende em um lugar indesejado. Esse medo, aos poucos, foi passando pois, a partir do momento em que entendemos tanto a nós mesmos quanto um ao outro, me dei conta de que havia medos bem piores. Como, por exemplo, da vez em que resolvemos nos estabelecer aqui nessa casa da cidade, no nosso lar, e você me disse que eu deveria escolher com que cor pintaríamos a nossa casa. Percebe a dimensão do problema?

Eu sempre gostei de azul, até hoje ainda gosto. Sabe o meu quarto azul com várias coisas riscadas nas paredes, desde frases a desenhos de livros que eu gostava (e ainda gosto)? Naquele ano eu comecei a chamá-lo de "piscina azul rabiscada de sentimentos" porque notei que aquele meu pedacinho de lugar na casa da minha mãe, aquelas paredes, representavam tudo do meu mundinho particular, era a forma que encontrei de expressar meu interior quando eu não tinha com quem ou para quem falar.

A cor azul é muitas vezes relacionada à tristeza e, por isso que, mesmo amando a cor, eu decidi que essa nossa casa teria, além do branco, tons de verde claro, de folhagem. Porque verde é esperança, vida, saúde, natureza. E naquele momento eu me confiei nesse significado e escolhi. Era a cor do ano em que começamos de novo. Era a cor que precisávamos para renascer. A cor que sempre precisaremos.

Assim como ainda preciso agora, neste momento, que você saiba como é. Ainda há muito para você viver, para nós vivermos, e talvez agora, aí nesse seu tempo, você ainda esteja se adaptando tanto a si mesmo quanto a nós dois. Mas saiba que a vida aqui é maravilhosa. Eu sei que você também acha isso porque eu olho para você e te enxergo muito mais do que antes e você brilha como uma estrela. Como a minha estrelinha no céu noturno. E você é lindo.

Tão lindo que neste momento mal consigo parar de te observar dormindo na nossa cama aqui ao lado. Seu peito sobe e desce com a respiração calma que embala o sono pesado de descanso para mais um dia útil da nossa semana. Você tão cansado que acho que mal sentiu o silêncio tomar conta do quarto quando peguei o controle remoto da sua mão adormecida e desliguei a tevê; ou quando depois afastei sua cabeça do meu peito e desastradamente, quase meia-noite, levantei da cama para sentar nessa escrivaninha e te escrever.

Eu te escrevo porque quero que saiba de algumas coisas:
- que o nosso futuro é possível - tanto daí para cá, quanto daqui para frente;
- que eu ainda estou aqui e ainda hoje lembro do dia em que te disse que havia percebido que não conseguia ficar muito tempo longe de você - eu ainda não consigo, e não quero ir embora;
- que os nossos filhos estão aqui e eles são lindos e você os ama tanto quanto nos amamos;
- que eu até amo aqueles nossos malditos cachorros lá na nossa casinha no interior;
- que eu sei o quanto você ama aquele lugar e que anseia a semana inteira por ele - que lá é nosso lar tanto quanto aqui;
- que eu te amo como eu nunca amei e nunca amarei ninguém;
- e que apesar de todas as minhas paranoias ao longo desse tempo, a verdade é que eu sempre me importei demais com você para ignorar o menor dos seus movimentos.

E que saiba que todos os dias eu me sinto um homem sortudo por esse nosso futuro sempre se renovar um com o outro. Tão sortudo que agora preciso para por aqui para abusar dessa sorte e voltar para a cama e dormir do teu lado até o dia amanhecer outra vez e eu agradecer aos céus por tudo.