sábado, 26 de novembro de 2016

DESGASTE

Eu estava no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo com uma amiga da faculdade e o relógio marcava 19h. O nosso voo de volta para Manaus sairia às 19h50, então ainda dava tempo de enrolarmos uns minutos antes de embarcar. Resolvemos ir comprar algo no Starbucks que era próximo ao nosso portão de embarque. Pedi uma bebida gelada de brigadeiro e ela um café. Queríamos pão de queijo para acompanhar, mas quando vi que o preço da porção custava 60 reais eu praticamente enlouqueci e resolvi que não compraria. Preço absurdo! O que tinha de tão especial nesse pão de queijo? Decidi procurar em outro estabelecimento, um café menos famoso, onde sabia que a porção não passava dos 20 reais. 

Eu conhecia praticamente nada do aeroporto, só da entrada até onde eu estava, perto do portão de embarque. Tinha passado por lá havia dois anos, quando fui passar dois dias na Bienal Internacional do Livro. Mesmo assim resolvi sair perguntando de quem encontrasse pelo caminho onde ficava o outro café. Mas ninguém sabia me dizer, nem mesmo uma funcionária do aeroporto. Continuei andando, resolvi descer um andar e procurar mais. Ainda havia tempo.

Andei, andei e nada de encontrar. Minha amiga ainda estava me esperando e logo teríamos que embarcar. Se eu demorasse mais, perderia o voo.

sábado, 19 de novembro de 2016

CULPA

Não é a primeira vez, nem a segunda, e creio que nem será a última vez em que tenho um momento desses. Durante o banho eu não sou a pessoa que frequentemente transforma o chuveiro em microfone e faz o próprio show particular onde se é a maior estrela pop da mídia da atualidade. Sim, eu canto, mas não é sempre. 

O negócio comigo é bem mais estranho que isso porque, em vez de seguir a regrinha esperada, durante o banho da noite meu cérebro, às vezes, parece funcionar muito melhor do que nas outras horas do dia. Na minha cabeça vem ideias que podem ser de coisas que eu possa fazer facilmente para vender e conseguir um dinheirinho extra, ou lembranças de coisas importantes esquecidas (como, por exemplo, de minha mãe ter falado de manhã que era para eu tirar o frango da geladeira à tarde para ela preparar quando chegar de noite; ou que, na semana passada, prometi de enviar por e-mail um arquivo para uma colega de classe da faculdade), ou lembranças de conversas que eu tive e as melhores respostas que eu poderia ter dado, coisas desse tipo. É um dos momentos mais produtivos do dia, onde eu tenho também tenho o que rotulo de epifanias.

e.pi.fa.ni.a s. f. REL 1 aparecimento ou manifestação divina 2 celebração cristã da aparição de Cristo

Mas, calma aí, essa definição é a do meu dicionário obsoleto e não é a que quero empregar aqui. O coleguinha Wikipédia diz que "Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo". Minhas epifanias nada tem a ver com Cristo, com religião ou com o divino. A não ser, talvez, que eu distorça o significado do dicionário e diga que o divino nisso tudo é o fato de minha mente não tão brilhante ter chegado num ponto de compreensão de algo que até então eu não via.

sábado, 12 de novembro de 2016

QUASE O FIM, de Leila Plácido


"[...] na guerra, nem todo mundo mata, nem todo mundo fere, nem todos torturam ou são torturados e nem todos morrem, mas todos saem com rombos e buracos negros na alma, no âmago ou em qualquer outro local que considerem ser seu recanto mais profundo."

Quando ouvi falar de Quase O Fim minhas orelhas logo se levantaram pelos seguintes motivos:
- uma narrativa de teor distópico;
- quem ainda lança distopia hoje em dia?;
- a autora é amazonense, manauara e ainda por cima escreve usando Manaus(!) como plano de fundo;
- a promessa de uma história com muita dor e sofrimento e um final in-fe-liz (adoro uma tragédia). 

Por que não, não é mesmo?

Confesso que não sabia da existência do livro, sequer da autora, até o momento em que ele foi apresentado em um Clube do Livro do qual participo e a própria autora me presenteou com um exemplar. (Obrigado, Leila. Que presente maravilhoso!)

Sabe quando você espera uma coisa de algo ou alguém e no fim aquilo que te dão é totalmente nada a ver com o esperado? Pois foi assim que Quase O Fim funcionou pra mim. Mas não de um jeito ruim! De um jeito muito bom mesmo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

NOVO COMEÇO?

re.co.me.çar
v. t.d. 1 continuar (atividade, trabalho etc.), após interrupção; retomar. v. int. 2 começar novamente (o que havia parado ou se supunha ter acabado)
re.co.me.ço
\ê\
s.m. novo começo

A edição mais recente do Minidicionário Houaiss da língua portuguesa que tenho em casa é a do ano de 2004 e foi dela que as definições acima foram extraídas.

É estranho querer falar de recomeço. É estranho até usar a palavra recomeçar. Recomeço me traz a ideia de iniciar outra vez algo que deu errado - o que torna a experiência toda de recomeçar um tanto traumática. A sensação é de que houve uma falha tão grande que não há espaço para reparos, e sim para um recomeço. Não digo isso querendo inibir tais falhas. Mas é triste ver que o que tanto quis fazer com que desse certo acabou não saindo do jeito que planejei.

O próprio dicionário, talvez confuso, me dá uma definição semelhante mas, para mim, não tão pesada, à palavra: novo começo. Parece mais simples. Como o ato de começar outra vez, desconsiderando as falhas anteriores, esquecendo do que deu errado para uma nova tentativa de que dê certo. Mas recomeçar, como verbo, dá ênfase à retomada de um trabalho após a sua interrupção.

Mas é justo me ligar a essas definições? Porque não posso simplesmente querer um novo começo assim, por querer? E o que tudo aquilo que vivi agrega de valor aos meus novos começos? As experiências anteriores devem ser jogadas fora, pela janela, no lixo? 

A sensação de se ligar tanto à particularidade da palavra, de querer um novo começo em vez de um recomeço, talvez se explique pela vergonha de não querer admitir que houve falha na tentativa anterior. Nas tentativas anteriores.