quarta-feira, 27 de setembro de 2017

SOBRE SER LEMBRADO

 
Houve uma época na minha vida em que eu me sentiria feliz por ser lembrado.

Eu gostaria de, ao ir a uma consulta pela segunda vez, ter o médico abrindo a porta de seu consultório, me procurando com o olhar entre as pessoas esperando e assentindo para eu entrar. Eu saberia que o fato de ele nem ao menos ter precisado pronunciar o meu nome seria uma indicação de que algo em mim o teria marcado sua memória. E que isso seria proveniente de algo como uma faceta da minha personalidade, da minha fala, ou até mesmo o meu sorriso. Eu saberia que tratando-se de alguém que diariamente lida com dezenas de pessoas, ser reconhecido seria uma espécie de ganho para mim, por ser alguém marcante.

Depois de um tempo postando vídeos na internet, e sendo uma pessoa ativa na comunidade na qual estava inserido, o reconhecimento era um tanto mais frequente do que sequer imaginei ser possível. Eu podia dar uma volta pela cidade e havia 50% de chances de alguém me reconhecer, me parar e perguntar se eu sou o garoto dos vídeos. Na ocasião eu ficaria desconcertado e ruborizado, mas lá no fundo, depois do momento ter passado, haveria aquele sentimento bom de felicidade por ter deixado uma marca na mente daquela pessoa aleatória. Marcas essas que para mim eram mais do que boas: eram maravilhosas.

Eu costumava imaginar que de fato a minha personalidade, meu bom humor, meu jeito de falar e minhas piadas sem graça melhoravam o dia de alguém. Que eu emitia, ao mesmo tempo para ninguém e para muitas pessoas, pensamentos e reflexões que me taxassem como alguém a quem elas poderiam recorrer em busca de algo a que se segurar. Que eu seria alguém que ao mesmo tempo estando e não estando ali disponível à elas, seria alcançado e de alguma utilidade (por menor que fosse).

Hoje as coisas estão diferentes, e não vou mentir e dizer que não sinto um pouco de falta de quem eu era. 

O sr. John Green já escreveu e contou para o mundo inteiro que "o esquecimento é inevitável", mas ser lembrado não é algo que simplesmente deixei de lado. Continuar mensalmente no projeto Document Your Life, publicar fotos e opiniões e qualquer outra coisa que seja engolida por esse buraco negro onde tudo se perde que é a internet é um exemplo perfeito do meu mecanismo egoísta de criação de uma reputação. Isso vai soar mórbido, mas eu honestamente imagino o dia em que deixarei de ser e terei pessoas me buscando na rede para relembrar do meu rosto, do meu sorriso, do som da minha voz e da minha risada, dos meus pensamentos mais íntimos que me custavam muita coragem para compartilhar e pensando no quão bom amigo e ouvinte eu era, no quanto eu as fazia rir e sorrir, no quanto eu importava... no quanto fui um exemplo de pessoa que não vivia uma vida perfeita mas que todos os dias levantava e tentava e tentava e tentava o seu melhor com o que o tinha sido dado.

Como todo ser humano, cometi alguns erros. De alguns me arrependi bastante, de outros nem tanto. Deliberadamente causei e atraí tanto coisas positivas quanto negativas, as quais agora intrinsecamente fazem parte de quem sou. 

Mas hoje se eu sentir que sou lembrado, como na consulta médica, também sinto uma onda de ressentimento. Porque sei que a atual marca que deixei só se fixou na mente da pessoa em questão porque há algo de ruim em mim que a fez lembrar. E esse não é, e nunca foi, o meu objetivo.

Vai ver que é por esse motivo que eu mesmo venho aqui registrar essas coisas: para me reafirmar e lembrar a mim mesmo das coisas boas que ainda fazem parte de mim e não deixar ser envolvido no rótulo de todas as ruins que me foram empregadas.

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