segunda-feira, 24 de julho de 2017

LEITURAS DE JUNHO/17


Junho foi um mês tão bom para as leituras... ♥ Eu juro que tentei bastante largar a ânsia de ler uma quantidade que considero boa por mês e por isso, dos três livros que li, acabei fazendo duas releituras que valeram muito a pena e me deixaram felizinho. O terceiro livro lido foi um de um autor que adoro e esse novo livro dele me surpreendeu muito, pois jamais pensei que leria algo que me deixasse tão frustrado a ponto de querer entrar no livro e esganar o personagem principal dele. Mas vida de leitor é assim, não é mesmo?

Título: Apenas Um Garoto
Autor: Bill Konigsberg
Editora: Arqueiro
Ano: 2016
Páginas: 253
Minha avaliação:
✩✩✩✩✩♥
"É difícil ser diferente — disse Scarborough. E talvez a melhor resposta 
não seja tolerar diferenças, nem mesmo aceitá-las, e sim celebrá-las. 
Talvez aqueles essas pessoas que são diferentes se sentissem mais amadas 
e menos... bem, toleradas."

Apenas Um Garoto foi uma releitura. A primeira vez que coloquei as minhas mãos nesse livro, em 2015, ele ainda nem tinha sido publicado aqui no Brasil. A edição em português só chegou aqui nas nossas terras no ano passado pela editora Arqueiro, graças à mim e minha migs Mayara Tashiro do blog Silêncio Contagiante.

"Mas, Allison, como assim?" A Mayara tem parceria com a Arqueiro e os boatos são de que lá na editora estava querendo muito publicar um bom livro com temática LGBT. Daí eu já tinha pintado e bordado a imagem desse livro pra Mayara e fiquei forçando ela a indicar pro contato dela lá e PEI! Deu certo. Tanto que esse exemplar eu recebi dos queridos e olha... eu não poderia ter ficado mais feliz pelo fato de terem nos escutado e traduzido esse livro pra gente. Obrigado, queridos. ♥ Mas, enfim, deixa eu tentar colocar em palavras o que esse livro tem de tão especial.

A história é contada por Rafe, um jovem garoto que é gay mais do que assumido e meio que o porta-voz de uma causa. O Rafe saiu do armário aos 13 anos e desde sempre foi aceito pelos pais, que o amam incondicionalmente e só se preocupam com a felicidade do filho. O pai é um amorzão, sensível e carinhoso que ama gravar mini vídeos do garoto no celular. E a mãe é igualmente maravilhosa pois até se tornou a presidente da associação de Pai, Parentes e Amigos de Gays e Lésbicas (PPAGL) de Boulder (no estado do Colorado), a cidade onde moram. E por essas influências da mãe, Rafe sempre se prontificou a dar palestras sobre tolerância etc. Daí a fama dele. E esse é o problema.

Rafe chegou em um ponto de sua juventude onde não aguenta mais ser o porta-voz dessa causa. Está cansado de ser enxergado através de um rótulo: o garoto gay. E tudo o que ele mais quer é a chance de se reinventar, deixar as pessoas o conhecerem como alguém cuja opção sexual não é seu maior atributo. E então, ele decide se mudar e vai para a escola Natick (no estado de Massachusetts), uma escola só para garotos, onde ele poderá meio que começar do zero ser apenas Rafe. Mas quem disse que o plano dele dá certo?

Isso mesmo, apesar de Rafe manter a sua orientação sexual em segredo as coisas vão bem só no início. O problema todo começa quando ele percebe que está se apaixonando por um dos seus novos colegas héteros. E aí, meus caros, shit goes down.

Esse livro me encanta pelo fato de Rafe ser e ter tudo o que qualquer garoto gay gostaria e não querer mais tanto isso. Acho que esse é um livro realista, com um personagem com características realistas, humanas, que mostra que nem tudo é simples e fácil. Ele tem praticamente tudo, sendo uma boa parte desse tudo o apoio incondicional dos pais -  o que qualquer garoto gay que tem problemas com a família gostaria. Mas ele não se sente ele mesmo, um ser humano como qualquer outro. Rafe sente que as pessoas o enxergam através de uma lente, que o rótulo dele passou a ser mais do que ele mesmo é. E é isso que é interessante no livro.

Além do fato mais importante, é claro: o preço que se paga por uma mentira.

A narrativa do Rafe na nova escola me envolveu de tal forma que apesar nem sempre concordar com o que ele fazia, com o que ele escondia, com tudo o que ele deixou acontecer, eu pude entender os motivos dele. O mais crível nisso tudo foi o conjunto de todos esses erros dele e o desenrolar - ou melhor, o enrolar - dele nas próprias omissões (que podem até ser de fato chamadas de mentiras).

Para mim esse livro, como  já deve dar para perceber, é importantíssimo e deve ser lido por todos, especialmente os heterossexuais, pois ele dá uma ideia de como é ser diferente e, acima de tudo, ser visto diferente. E a grande moral da história do fim é que ser diferente não é ruim. E que tolerar e aceitar não é o mesmo que celebrar.

E que mentiras e omissões podem acabar partindo corações demais.


Título: A Sereia
Autor: Kiera Cass
Editora: Seguinte
Ano: 2016
Páginas: 323
Minha avaliação:
✩✩✩✩✩♥
"Talvez o segredo para eu poder seguir em frente 
não fosse eliminar tudo o que sentia. Talvez só precisasse me concentrar 
no único sentimento que fazia todos os outros parecerem menores."

A Sereia foi a minha outra releitura. Quando li pela primeira vez, em janeiro do ano passado, até gravei um videozinho onde tentei expressar todos os meus sentimentos em relação a essa história. E falando em vídeo, acho que quem me conhece sabe que (olha a ironia) meu maior rótulo no meio literário é de fã dos livros da Kiera Cass.

A Sereia foi o primeiro livro que a autora escreveu, e ele foi publicado de forma independente no Amazon. Mas com o sucesso da série A Seleção, não demorou muito para a equipe da HarperTeen comprar os direitos de publicação e lançar o livro para o mundo todo. Daí, a Kiera pôde até revisar e reescrever toda a história para que fosse publicada. E o resultado foi esse stand-alone em formato de contos de fadas tão adorável quanto qualquer livro de A Seleção.

A história é contada por Kahlen, uma jovem garota (de 17 ou 19 anos) que perde a família e quase perde também a própria vida em um naufrágio. Quando ela percebe que está prestes a morrer e não viveu quase nada da vida e implora para viver, seus pensamentos são escutados pela Água. E aí ela encontra outras Sereias que apresentam à garota duas opções: se juntar a elas e servir a Água por cem anos, cantando para atrair pessoas para alimentar essa entidade, tendo sua forma física preservada por todo esse tempo até a sentença acabar e depois seguir a vida normalmente, mas sem lembranças do tempo de servidão; ou se juntar à família na morte. Kahlen, é claro, acaba escolhendo a vida e se junta à irmandade das Sereias.

Oitenta anos se passam e Kahlen já viu de tudo do mundo, viajou por vários lugares, teve várias irmãs Sereias com quem sempre gostou de brincar sobre o que quer ser da vida quando a sentença acabar. Mas, pelo fato de Kahlen ter nascido em uma época diferente, em que a maior aspiração das mulheres era encontrar um bom marido e ser feliz incondicionalmente, apesar de já ter visto tanto coisa do mundo nesses oitenta anos, ela ainda sonha com seu final feliz.

Desde que se juntou à irmandade a garota se tornou a Sereia mais querida da Água. Porém, apesar de ela sempre cumprir com o seu dever de alimentar a Água, Kahlen sofre com as mortes que causa (mesmo que seja para equilibrar a vida e a morte).

Nossa protagonista ama se isolar com suas leituras em bibliotecas, e numa dessas que um dia ela acaba conhecendo um jovem garoto chamado Akinli. A comunicação entre Kahlen e os humanos é impossível, já que sua voz é fatal e se alguém escutar, essa pessoa estará condenada. Então quando Akinli surge e insiste em conversar com ela, mesmo com essa pequena barreira na comunicação entre eles, a garota passa a enxergá-lo com a possibilidade de que ele seja sua alma gêmea.

E aí o romance quase que instantâneo dos dois começa e se desenvolve demais para Kahlen suportar, já que ainda faltam vinte anos para que sua sentença acabe. E mesmo que Akinli soubesse da condição dela, ele já teria seus 40 anos, enquanto ela ainda permaneceria jovem. Sem falar no fato de que após cumprida a sentença, as Sereias esquecem de tudo o que viveram, e Kahlen não teria lembranças de quem ele é. Então, com muita dor, ela resolve se afastar e sofre com sua decisão. Mas ao decorrer do tempo, ela percebe que o destino é bem mais forte que o seu dever para com a Água e Kahlen considera arriscar tudo o que tem para finalmente viver o grande amor da sua vida.

Depois de um ano, confesso que o encanto inicial pelo livro passou um tantinho, mas não quer dizer que dessa vez eu tenha desgostado da leitura. O negócio em reler - acredito que pelo menos para mim - é poder experimentar a história uma outra vez com outros olhos, e até mesmo perceber coisas que anteriormente não pude.

Um dos primeiros problemas é o relacionamento abusivo entre Kahlen e a Água, que eu já não gostava antes, mas dessa vez foi insuportável. Em determinado momento da narrativa, obviamente a Água descobre os sentimentos de Kahlen pelo humano Akinli e tenta de todas as formas impedir sua Sereia favorita de se desviar do caminho. No entanto, as formas com que a entidade tenta fazer isso são todas carregadas de palavras e ameaças que atacam o emocional de Kahlen - embora a relação entre elas seja pintada como de mãe e filha. Dessa vez foi bem mais incômodo presenciar todo esse desenrolar.

Outra aspecto problemático seria a representação que o livro tem para o público ao qual ele é direcionado. Exemplo: o fato de o maior desejo da vida de Kahlen (mesmo depois de viver anos e ver um bocado do mundo) é arranjar um parceiro para se casar. Lembro de ter visto uma vez o vídeo da Michas Borges sobre o livro e ter ficado surpreso com a crítica dela em relação a esse assunto, pois na época - como dito anteriormente - o encanto inicial deve ter turvado minha visão para isso. Hoje eu posso dizer que sim, concordo demais com ela. É claro que é de se considerar que Kahlen nasceu em uma época onde as mulheres eram praticamente compelidas pela sociedade a se tornarem esposas etc. Mas hoje em dia a realidade é outra e, portanto, existe uma porta de abertura enorme para essa crítica em relação aos tempos atuais e a [considerável] influência que a literatura tem na formação crítica dos jovens leitores.

Então, para fechar o meu comentário, acho que esse é um dos casos em que não descarto ou elimino nem um pouco a credibilidade do autor em relação à escrita dele - até porque eu particularmente gosto desse tipo de romance, por mais irreal e desesperador que seja. Mas também reconheço o problema que ele pode representar para um leitor que [como eu, na época] é menos crítico e não tem ainda a capacidade suficiente para perceber essas coisas.

No geral, ainda sou fã da Kiera Cass e estou aqui para ler o que quer que ela escreva. O que me importa nos meus hábitos de leitura é me sentir felizinho ao mergulhar nessas realidades alternativas onde tudo são flores. ♥


Título: History Is All
You Left Me
Autor: Adam Silvera
Editora: Simon & Schuster
Ano: 2017
Páginas: 294
Minha avaliação: ✩✩✩✩
"What I've now learned is, going forward, I have to be careful 
whom I trust with my heart. 
I have to be suspicious that someone will use the love I give and carry it over to someone else."

"O que aprendi agora é que, ao seguir em frente, tenho que ter cuidado 
ao escolher a quem confiar meu coração. 
Tenho que desconfiar que irão usar o amor que eu dou e levar ele a outro alguém."

History Is All You Left Me, ainda sem tradução aqui no Brasil, é o segundo livro do autor Adam Silvera. O autor, apesar de ser quase um iniciante, já possui uma característica especial a ser identificada na sua escrita: histórias com personagens gays e tristes. E History não foge à regra. O personagem principal deste livro é Griffin, um jovem de uns 17 anos, que sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), e cujo ex-namorado e amor da sua vida recentemente morreu afogado.

A narrativa se divide entre capítulos que contam o History (antes), onde o relacionamento de Griffin e Theo passou de amizade para namoro, e o Today (agora), onde Griffin já começa contando sobre seu estado atual a partir do velório de Theo.

O primeiro negócio está no fato de que Theo se mudou de Nova Iorque para a Califórnia quando foi aceito antecipadamente em uma universidade. E então Griffin decidiu terminar o namoro com Theo, mas tinha esperanças de que apesar dos apesares, como a distância que os separaria, os dois seriam endgame e encontrariam o caminho de volta um para o outro. No entanto, em apenas alguns meses longe, Theo acabou encontrando outro garoto, Jackson, na faculdade e começou a namorá-lo.

O outro negócio está no fato de que Griffin agora tem de lidar com a presença constante de Jackson em Nova Iorque, que veio para o funeral de Theo. Por ser a única pessoa capaz de entender pelo que Griffin está passando neste momento de tristeza, o garoto resolve forjar uma amizade com Jackson de forma manter o pouco de sanidade que ainda lhe resta com suas as memórias do passado e com o que Jackson tem a oferecer a ele em relação ao falecido garoto.

O problema é que a relação entre os dois, que já é questionável desde o início, começa a se tornar interessante quando se torna possível perceber que tanto Jackson esconde detalhes sobre o acidente de Theo (pois era ele que estava com o garoto quando ele se afogou), quanto as verdades que Griffin conta sobre seu romance se tornam questionáveis. Eu sei, eu sei, essa deve ter sido a pior sinopse que já escrevi na minha vida. Então vou partir logo para as minhas impressões gerais sobre a história.

Depois de ter lido More Happy Than Not (Lembra Aquela Vez, publicado aqui no Brasil recentemente - que devo declarar ser MARAVILHOSO) nunca pensei que eu sentiria uma raiva tão grande, ou até mesmo nojo (desculpa se a palavra é um pouco forte), de um personagem do Adam Silvera. 

O Griffin me irritou de uma forma absurda enquanto eu terminava esse livro. No começo, eu só conseguia sentir pena dele por toda a situação com o TOC e o fato de ele ter perdido a pessoa que ele supostamente mais amava. Mas depois, quando as verdades começam a ficar mais claras, eu só queria entrar no livro, segura-lo pelo pescoço e sacudi-lo até sentir remorso por tentar tirar a vida dessa pessoa que agora considero mentalmente desequilibrada.

Mas não o rotulo assim pelo fato de ele realmente apresentar algum quadro psicológico que explique as escolhas dele. Pelo contrário. Falo mais pelo fato de que tais escolhas que ele fez, desde que terminou o namoro com Theo, o tornam, para mim, uma pessoa indigna de sequer ser capaz de considerar a possibilidade de ser endgame do ex. 

Okay, okay, tudo bem, entendo também que ele é jovem e mal sabe o que faz, e que esse tipo de coisa acontece justamente para que o herói da narrativa no final possa dizer que aprendeu algo com suas ações. E reconheço também que isso é algo que podemos aplicar em nossas próprias vidas. Mas ao mesmo tempo em que tenho ciência disso, mesmo tendo eu mesmo causado certas merdas à minha vida, não posso deixar de me sentir revoltado com tudo.

E é por isso que sei que History é um livro maravilhosamente bem escrito. Me considero o tipo de leitor que preza muito por literaturas que, além de serem um ótimo entretenimento, me fazem sentir emoções intensas como essas. 

No geral, não acho que eu possa falar muito mais desse livro. Apenas que foi uma boa leitura, e que mesmo tendo classificado-o com apenas 4 estrelas (a minha nota média), valeu a pena ler e quero um dia ter coragem de reler e quem sabe perceber outros problemas, como fiz com as releituras anteriores.



Agora acho que vou parar de escrever postagens de leituras do mês e focar em fazer uma postagem grande para cada livro.

Isso é tudo, pessoal. ♥

Foto: produção própria

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