quarta-feira, 28 de junho de 2017

A CAPACIDADE DE VER ALÉM

Existe um livro, que também tem um filme, que é bastante conhecido, especialmente nos Estados Unidos, chamado The Giver (na tradução, O doador de memórias) da autora Lois Lowry. É simplesmente uma das obras mais incríveis que já li, e um dos filmes mais bonitos que já vi. 

Na história, um garoto chamado Jonas vive 
num mundo onde não existe pobreza, crime, doença, fome, divórcio, medo nem dor. Todos têm família, saúde, emprego, educação e lazer. As pessoas são treinadas para manter seus sentimentos sob controle. As regras de conduta são invioláveis, os desejos, reprimidos, e o amor é uma palavra que não existe no vocabulário. A ordem e a paz reinam absolutas.
Mas esse universo começa a mudar quando Jonas recebe sua Atribuição, o seu papel a ser desempenhado na sociedade, e a dele é a mais inusitada de todas: ele deve ser o novo Recebedor de Memórias. Jonas será o único, além do Doador de Memórias, a guardar conhecimento de sensações, experiências, sentimentos humanos que foram banidos da sociedade.

A partir do momento em que Jonas inicia seu treinamento, ele começa a perceber coisas que estão, de certa forma, fora do alcance do olhos alheios; ele possui a capacidade de ver além.

Uma vez uma amiga conversava comigo sobre seu relacionamento conjugal, ela procurava conselhos sobre o que fazer ou falar. Pedi que ela me explicasse a situação e tentei pensar na maior quantidade de variáveis possíveis e contar a ela coisas que ela poderia fazer, dizer ou responder ao seu parceiro quando ele perguntasse. Ela havia assistido ao filme de O doador de memórias e então usei uma referência: disse que ela precisava exercitar a capacidade de "ver além".

Essa capacidade, para mim, se aplica a várias coisas na vida. Como, por exemplo, nesse caso da minha amiga. Eu queria que ela entendesse que ela tinha de pensar bastante no que fazer, falar, e se preparar para o que quer que viesse. 

Um outro exemplo bem besta que posso dar seria no trabalho. Imagino que se você é um chefe e precise que um subordinado faça determinado serviço em determinado lugar, o ideal seria orientar essa pessoa a fazer o tal serviço, claro. Porém, além disso, seria pensar em coisas a mais que ele poderia fazer e, como diz o ditado, "matar dois coelhos com uma cajadada só".

Deixa eu tentar ilustrar... Digamos que você é o chefe e está precisando que seu empregado vá ao supermercado comprar ingredientes para você fazer um bolo. Você dá a ele uma lista com os ingredientes essenciais, como farinha de trigo, manteiga, açúcar, ovos, leite, essência de baunilha, e o dinheiro suficiente para pagar tudo. O empregado pega o dinheiro e a lista e a lê para o chefe e pergunta se isso é tudo que ele vai precisar para fazer o bolo. O chefe, ocupado, só concorda, dispensa o empregado e mal escuta quando ele tenta perguntar se não precisaria de outros ingredientes para fazer uma cobertura para o bolo, talvez. Não é a primeira vez que o subordinado passa por uma situação dessas e é cortado pelo superior.

E então esse empregado vai ao supermercado, compra tudo da lista, e quando volta o chefe diz que faltou leite condensado, creme de leite e chocolate em pó para fazer a cobertura do bolo e basicamente culpa o empregado por não ter pensado nisso. Mas, na verdade, o empregado pensou e tentou falar, mas foi calado por ele. E então, o empregado tem que fazer todo o caminho de volta ao supermercado e comprar os itens restantes para fazer o bolo.

Minha avó tinha o costume de sempre falar uns ditados provindos de sua criação, e um deles, que sempre me vem à memória, é "o preguiçoso trabalha duas vezes". No caso ilustrado, quem foi o preguiçoso? O empregado que não se impôs ao superior, ou o chefe que não se dispôs a escutar o subordinado? Eu sei a minha resposta.

Para mim, a capacidade de ver além não é uma questão de adivinhar tudo. Entendo mais como uma questão de se preparar para o que pode vir. É uma coisa segura, e ao mesmo tempo não - porque te faz pensar e pensar e dar voltas naquele assunto, e pode até deixar uma pessoa maluca. Mas na maioria das vezes já me ajudou, e ainda ajuda a me preparar - tanto em DRs de relacionamentos amorosos, quanto ao fazer compras para minha mãe e até adivinha?... no trabalho.

O problema é que é uma pena que nem todo mundo consiga pensar assim, pensar demais, ou simplesmente se preparar, se antecipar. Algumas pessoas só sabem exigir das outras, como se fôssemos apenas objetos numa prateleira disponíveis e prontos para serem usados a qualquer momento e quando for mais conveniente a elas, não importando quantas vezes for conveniente a elas.

Na história de O doador de memórias a sociedade é praticamente cega. Em busca da sociedade perfeita, foi criada a Mesmice - barreiras que eliminaram cor, raça, religião, sensações, dor, sofrimento, sentimentos e emoções para que não houvesse a inveja, raiva, ressentimento, ódio etc e todos fossem os mesmos. Mas adquirir controle sobre essas coisas levou a abrir mão de outras. A Mesmice apagou das pessoas não só a capacidade de ver além, mas a capacidade ouvir além.

É um tanto triste pensar algumas pessoas vivem em um mundo intrínseco a elas bem similar ao ilustrado na obra de Lois Lowry, um mundo de Mesmice - um mundo em preto e branco, uma espécie de comodismo. O que me consola é algo que o Doador diz ao Jonas - o que me faz pensar que registrar isso aqui me faz ganhar algo -, que "Memórias não são só sobre o passado, elas determinam o nosso futuro. Você pode mudar as coisas, pode fazer as coisas melhorarem."

Foto: produção própria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário