sábado, 29 de abril de 2017

PAR DE SAPATOS VELHOS

Já faz quase três anos desde que comecei a usar esse par de sapatos. Na época, quando novo, ele era muito bonito. Era preto, simples, tinha além de cadarços um zíper lateral, e tão confortável que quando eu o calçava parecia que estava pisando em nuvens. Ele foi comprado pela minha mãe para uma ocasião muito especial. E a experiência de usá-lo em tal ocasião me deixava não só com os pés nas nuvens mas com a cabeça nelas. Eu me sentia poderoso e feliz e extremamente confortável. Por ter sentido essas coisas, depois disso eu só queria saber de usar ele aonde quer que fosse.

O tempo foi se passando e quanto mais eu usava, mais o coitado ia ficando desgastado e feio e surrado. Mas por dentro, continuava tão confortável quanto antes, afinal eu já o havia amaciado e meus pés se encaixavam neles como duas peças criadas para ficarem juntas eternamente. Eu não via mais a minha vida sem esses sapatos.

Até que chegou um outro momento, uma outra ocasião em que eu decidi que precisava de sapatos novos. Procurei nas lojas pelo modelo que eu tinha e não achava nem mesmo outro da mesma marca. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Como é que uma marca de sapatos some assim de todas as lojas? Não é possível!, eu pensava. E aí examinei todas as outras opções, e dentre elas escolhi um par que não tinha zíper na lateral mas era tão bonito e simples quanto o anterior. Esse novo par tinha presença, atitude, uma cor imponente. Nessa loja em que fui, o tamanho disponível dele era um número menor do que eu calço. Fiquei logo desconfiado, mas resolvi experimentar mesmo assim. E como o maldito ficou bonito nos meus pés. Claro que não tão confortável quanto o anterior, mas ainda assim bonito. Dei alguns passos pela sapataria e não o achei tão apertado, servia o suficiente. Estava precisando mesmo, então resolvi levá-lo. O preço foi uma das melhores partes, metade do que tinha custado o par anterior, aquele feito de nuvens e algodão. E aí fui para casa, depois para onde precisava ir e tudo aconteceu normalmente.

Alguns meses se passaram e eu insistia incessantemente mas o bonito parecia que nunca ia amaciar. Comecei a achar que ele estava encolhendo nos meus pés, apertando meus dedões. Mas a verdade é que nem ele encolhia e nem meus pés cresciam. Ele não me servia mesmo, só teve utilidade daquela vez em que precisei desesperadamente. Decidi voltar a usar o querido anterior e parar de ligar para o fato de que ele tinha uma aparência de dar pena e lembrar que conforto era o suficiente para mim. E aí continuei usando até recentemente ter encontrado um novo par. Mas a história desse novo par vai ter que ficar para depois.

Um livro que gosto muito me deu a seguinte frase, "[...] you never really know a man until you stand in his shoes and walk around in them."¹, que traduzida livremente diz "[...] você nunca conhece um homem de verdade até pisar em seus sapatos e andar com eles". A moral da história é não julgar as pessoas levianamente, se colocar no lugar delas; mais que isso, tenho para mim, é não julgar as pessoas e ponto. Desde então, em vários momentos da minha vida tento tentado lembrar disso e antes de criticar, mesmo que silenciosamente, me perguntar "e se fosse comigo?".

Mas o que isso tem a ver com a história dos meus sapatos? Eu percebi algumas coisas:
1. que o segundo par de sapatos, o que tinha mais beleza e serventia imediata, na verdade não era meu, por mais bonito que ficasse nos meus pés. Era o par de outra pessoa, de alguém que calça um número a menos que eu;
2. que foi só quando insisti, tentei, e passei um tempo com ele nos pés, foi que percebi o quanto calçá-lo doía;
3. que dessa vez foi como minha querida avó sempre dizia, "o barato sai caro". As coisas podem até ser suficientes à curto prazo, mas é preciso de um investimento maior se você quer algo para o longo prazo;
4. que às vezes sei exatamente o que estou procurando, mas acabo me encantando por outra coisa que aparece no caminho e achando que aquilo é o suficiente;
5. que o exterior raramente importa, que o interior importa muito mais;
6. que apesar de literalmente ter saído da minha zona de conforto, pude viver e aprender algo com isso.
7. e, por último mas não menos importante, que o tempo sempre desgasta as coisas e uma hora a gente tem que aprender a abrir mãos daquilo que nos conforta, aprender a guardar as lembranças com carinho, e encontrar e investir em algo novo que poderá ser tão bom quanto o velho.

Provavelmente há mais coisas que posso extrair dessa experiência, mas não consigo pensar nelas agora. Talvez daqui algum tempo. Eu sei que sempre existe algo além do que a gente consegue enxergar.

Foto: produção própria.
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¹ LEE, Harper. To kill a mockingbird. New York: Grand Central Publising, 2010.

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