terça-feira, 25 de abril de 2017

CONQUISTA, NÃO DÁDIVA

Começa quando você escuta aquele barulho ensurdecedor de algo se quebrando.
Você percebe que o barulho vem dentro de você.
E ainda assim fica se enganando, dizendo a si mesmo que está tudo bem,
que tem tudo sob controle. 
Mas que grande mentira.
Você a sustenta até seus ombros e braços e pernas e costas doerem.
Até você não conseguir mais.
E aí você decide que é melhor deixá-la cair.
E então ela se desfaz no chão em mil estilhaços que se espalham ao seu redor,
atrapalhando o seu caminho.
E você percebe que não tem para onde ir,
que ser der um passo para qualquer direção sequer seus pés se abrirão
e o sangue começará a jorrar dos cortes.
E aí você fecha os olhos e decide que o escuro é melhor,
pelo menos por enquanto.
E você mata,
morre,
se suicida.
Metaforicamente, é claro.
Resolve deixar a dor para trás.
E aí você passa para o outro lado e está tão frio e escuro quanto antes
e se pergunta o que está acontecendo,
se é aquilo mesmo, se todo aquele vazio faz parte do processo.
Tateia na escuridão tentando alcançar alguma coisa
e percebe que não muito longe de onde você está há uma parede,
lisa,
dura,
fria,
marcada.
Dá alguns passos para trás e descobre outra às suas costas.
Então não há um caminho?
Sim.
Para os lados.
E aí a confusão vem e te agarra e você não sabe qual dos dois é o certo.
O da direita ou o da esquerda?
Alguns minutos, ou talvez horas, se passam
até você decidir escolher um deles.
Eu não vou dizer qual é,
você deve saber.
Deve ter a autonomia suficiente para fazer esta escolha,
a capacidade.
E aí segue e a caminhada na escuridão é sufocante e cansativa.
Mas ela acaba.
Uma hora ela acaba.
Você já viu essas cenas em alguns filmes que assistiu na vida passada e tem ideia de como é.
Sabe que a escolha é sua.
Que para conseguir o que deseja tem que persistir.
E então tenta.
E faz tudo o que está ao seu alcance.
E simplesmente vai.
Quando já acha que não vai mais conseguir, ela aparece.
Primeiro, bem pequena, e fraca.
Te faz pensar que é coisa da sua imaginação. 
Mas não é.
Ainda está lá.
Ela é real, possui calor. 
E o frio começa a se dissipar.
O ar já não parece mais tão pesado.
E você continua até chegar perto da saída,
a saída para uma nova vida.
Dia desses meu pai disse que "a felicidade é uma conquista,
não uma dádiva".
No final tem uma recompensa.
E ela vem na medida dos seus esforços.

Foto: produção própria.

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