sábado, 3 de dezembro de 2016

SOBRE PROFUNDIDADE

Meu histórico de pessoa superficial e inatingível não é de hoje. Quando mais novo, sempre fui muito fechado em mim mesmo, nunca deixei gente entrar e saber o que se passava na minha cabeça. Parando para pensar agora, acredito que tudo tinha a ver com o fato de não estar confortável com meus pensamentos na época. Sempre fui do tipo que observa os familiares e usa essas observações para não fazer igual. Não há melhores exemplos do que aqueles que não devem ser seguidos. Na época da aborrecência comecei a verbalizar minhas opiniões divergentes em assuntos familiares e, ao fazer isso, mostrar grande irritação acerca dos mesmos. Eu sentia (acho que ainda até sinto) que não fazia parte daquilo. Aquelas pessoas eram meus parentes só no sangue mesmo. Então, acredito que, devido a esse comportamento, eles sempre me consideraram impenetrável, incapaz de sentir algo, ou afiado demais - já que sempre tive uma resposta na ponta de língua para tudo. 

Quando resolvi me expor na internet foi através do meu canal no youtube. O vídeo que mais me deu visualizações foi aquele no qual eu falava do livro A Seleção, da Kiera Cass (inclusive, vergonha desse vídeo que até hoje está na memória de muitos leitores brasileiros que sei que me amam meus micos ♥). Depois de um tempo eu percebi que estar na internet não faz com que as pessoas te conheçam, apenas que elas saibam quem você é. Sempre fui grato pelos viewers etc, mas eu sabia que muita gente me adorava por aquela imagem que tinham de mim opinando sobre livro x, e eu ficava um tanto frustrado quanto a isso - porque eu recebia um tratamento que não acreditava ser digno de alguém que fazia o que eu fazia; era uma espécie de idolatria indesejada, além da banalização da própria imagem. No começo também tinha muita relutância em falar especificamente sobre mim nos vídeos. Eu não estava ali para isso e nem queria ser famosinho, apenas compartilhar opiniões sobre as leituras e conversar.

Sobre as minhas feições, tenho plena ciência de que não são lá muito convidativas. Até eu, se me visse passando na rua, acharia que sou um metido de nariz empinado etc. Hoje em dia é comum chegarem para conversar comigo e em um momento acabarem dizendo variações da frase "Nossa, sempre achei que tu era metido/antipático". Pois é. Eu sou legalzão e tal, juro. Claro que tenho meus dias sombrios, mas sempre tento tratar as pessoas com o maior amorzinho possível.

Porque estou tocando neste assunto mesmo, hein? Ah, sim: dia desses estava eu conversando com um coleguinha e ele me perguntou sobre as peripécias da vida. Falei o básico - até porque não tínhamos intimidade para mais que isso - e ele me veio com "O que é estranho porque você é o O Allison Andrade", a qual minha resposta foi "O que a maioria acha não passa de uma casca que criaram involuntariamente para mim. No fundo eu sou um sentimentaloide do pior tipo".

A problemática dessa história está no seguinte: comecei a pensar se na medida em que algumas pessoas iam me conhecendo elas viam diante de seus olhos uma desconstrução, talvez, drástica daquilo que esperavam de mim. É frustrante, sabe?

Não estou generalizando, mas acredito que hoje em dia a maioria gosta mais do que é fácil, do superficial, de soluções simples e de estar livres de problemas. Uma outra frase que escutei e que se fixou na minha memória foi "Eu me afoguei em você". Na época confesso que fiquei um tanto chocado com a afirmativa, mas logo notei que isso não deveria me assustar. Pelo contrário, eu deveria agradecer aos céus. Sabe quando tu quer sair com os amigos e tua mãe diz não e tu diz que todo mundo vai e ela vem com aquela respostinha pronta pra ser jogada na tua cara?
"Você não é todo mundo".

Mães, vocês sabem do que falam.

Vou repetir aqui a metáfora que uma vez usei sobre a situação. Acho que para alguns eu devo ser como uma piscina. Olham para mim de cima, acham que sou raso e pulam com a crença de que têm tudo sob controle, que terão diversão all the time e quando estiverem satisfeitos irão sair, se enxugar e continuar com a vida. O negócio é que quando pulam, alguns acabam de fato se afogando. Mas a culpa não é minha se não sabem nadar.

Não quero dizer que entrar num relacionamento afetivo com a minha pessoa implica em lidar com os meus problemas. Quero dizer que, seria mais fácil se antes de sequer considerarem a possibilidade de se envolver comigo, pesassem os fatos e tomassem conhecimento de que: eu não sou descartável.

Tudo bem se alguns se relacionam com outras pessoas de forma desapegada e descompromissada. Acredito que gente como eu (hopeless romantics, românticos incuráveis) entende que existem pessoas assim e okay. Somos todos seres humanos parecidos, mas não somos iguais. Nesses casos eu até me afasto, porque sei que comigo a banda toca outro estilo musical - quase tudo gira em torno de músicas românticas no fone de ouvido olhando através da janela do ônibus na volta para casa. Tento resistir, mas sempre me iludo facilmente com tudo. E quando vocês, povo do desapego, chegam com suas intenções suspeitas, eu distorço a visão da realidade do mesmo modo como vocês mentem para si mesmos achando que usando gente como eu irá fazê-los mudar do dia para a noite. É como se fosse um jogo, e um grande impasse.

As possibilidades de mudança existem, sim. Um dia posso chegar no ponto em que sofri tantas desilusões amorosas que deixarei de ser um romântico incurável - e ainda por cima provarei que o termo nem é tão válido assim. Assim como um dia vocês também podem mudar, deixar de ser desapegados, e agregar um pouco mais de compromisso às relações. Só que tudo deve partir do princípio de que a mudança deve vir de nós e sobre nós mesmos. Não é legal usar as pessoas como pontes para atingir seus objetivos. Algumas pontes têm estruturas frágeis (no caso, coração frágil). E o mais importante: não somos cobaias de ninguém, nem para ninguém.

Por em prática a honestidade e expor logo suas preferências num primeiro instante deveria ser o adequado. Sei que não é fácil ser assim, mas deveria. Tudo bem se você acredita que viver e adquirir experiências é isso - o processo desapegado de passar por várias pessoas - mas o que é bom para você nem sempre é bom para o próximo. Precisamos de mais amores inteiros e menos corações partidos, de mais profundidade e menos superficialidade. Um dia todo mundo vai morrer, é fato. Então porque desperdiçar tempo numa incerteza e fazer alguém acreditar que existe algo para vocês quando na verdade não há? Pouparia horas e sentimentos que futuramente podem vir com a famosa pontada de arrependimento.

Pouparia afogamentos também, é claro.

Foto: produção própria.

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