segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

QUERIDO DEZEMBRO,

desde antes de começar a te escrever, há dois anos atrás, tenho tido reservas em relação à você. É engraçado agora olhar para trás e ver o quanto as coisas mudam. Claro que você continua não sendo o meu favorito, ainda te acho a descida e parada final de uma longa montanha russa.

O que mudou foi minha percepção, a minha projeção de mim sobre todos esses livros que tenho lido que tanto falam de pessoas que mudam de acordo com os acontecimentos em suas vidas. As mudanças são consideráveis. 

Lembro de quando uma vez falei que, por causa do Natal e das festividades em família, eu me sentia o próprio Boo Radley. Que haviam motivos pelos quais eu não gostava de sair e me misturar. Hoje eu já não me sinto tanto como o Boo. Lembro de ter desejado ser como o Atticus, pois era incapaz de lutar por uma causa perdida. Mas agora sei que não preciso lutar por essa causa porque essa luta não é minha, essa parte não está sob o meu controle. 

Cheguei ao ponto de ser como o Atticus mas a diferença é que, nas circunstâncias atuais, sou a versão de Go Set A Watchman. Não quero dizer não fiquei um tanto triste com a mudança que ocorreu às vistas da Scout quando ela notou o quanto seu querido e amado pai mudou. Mas me enxergo mais da forma que o Henry tenta explicá-la. Ela a diz:

"Um homem pode aparentar ser parte de algo não tão bom, mas não tome a atitude de julgá-lo 
a menos que conheça seus motivos. Um homem pode estar fervendo por dentro, 
mas sabe que uma meia resposta é melhor do que mostrar a sua raiva. 
Um homem pode condenar seus inimigos, mas é mais sábio conhecê-los." 
(LEE, 2015, p. 230, tradução nossa).

Sei que de acordo com o histórico de palavras que tenho te dito isso tudo me faça parecer hipócrita, mas não sou. Tenho seguido conselhos e tentado relaxar e agregar aprendizado à tudo nessa vida. Tenho aprendido a filtrar algumas coisas em vez de absorvê-las. Tenho aprendido a não ser uma esponja e tem funcionado. Talvez a gente às vezes só precise de descanso para aproveitar o que temos enquanto ainda podemos. 

Meu propósito aqui não é ser o advogado do Atticus ou justificar o que ele não justificou com tanta clareza. Mas suponho que, com sua idade, depois de tantos anos sendo quem é, e fazendo o que tem que ser feito, ele tenha entendido que alguns cidadãos de Maycomb estão fadados à mesmice. Não vejo como hipocrisia, mas como uma adaptação às convenções sociais. No fundo ele sabe quem é e no que acredita. Ele não está perdido. Só quer poder aproveitar um café forte e sem leite com biscoitos e panetone.

Foto: Arquivo pessoal.

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LEE, Harper. Go Set a Watchman. New York: Harper, 2015.

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