sábado, 12 de novembro de 2016

QUASE O FIM, de Leila Plácido


"[...] na guerra, nem todo mundo mata, nem todo mundo fere, nem todos torturam ou são torturados e nem todos morrem, mas todos saem com rombos e buracos negros na alma, no âmago ou em qualquer outro local que considerem ser seu recanto mais profundo."

Quando ouvi falar de Quase O Fim minhas orelhas logo se levantaram pelos seguintes motivos:
- uma narrativa de teor distópico;
- quem ainda lança distopia hoje em dia?;
- a autora é amazonense, manauara e ainda por cima escreve usando Manaus(!) como plano de fundo;
- a promessa de uma história com muita dor e sofrimento e um final in-fe-liz (adoro uma tragédia). 

Por que não, não é mesmo?

Confesso que não sabia da existência do livro, sequer da autora, até o momento em que ele foi apresentado em um Clube do Livro do qual participo e a própria autora me presenteou com um exemplar. (Obrigado, Leila. Que presente maravilhoso!)

Sabe quando você espera uma coisa de algo ou alguém e no fim aquilo que te dão é totalmente nada a ver com o esperado? Pois foi assim que Quase O Fim funcionou pra mim. Mas não de um jeito ruim! De um jeito muito bom mesmo.

A personagem principal é uma menina de dezessete anos chamada Zoé que sempre adorou assistir filmes sobre o fim do mundo. Sendo assim, quando o tal fim do mundo bate à sua porta ela tem a chance de por em prática tudo o que absorveu dos filmes para, quem sabe, conseguir sobreviver aos ataques dos "Messias", que deram início ao que chamam de purificação do planeta Terra.

Esses tais "Messias" são como um grupo terrorista que durante séculos estava camuflado em meio à população esperando o momento para começar o processo de reset na humanidade. Eles atacam o mundo com bombas e com isso procuram os melhores, os sobreviventes dos testes que farão parte da construção do novo mundo.

Título: Quase O Fim
Autor: Leila Plácido
Editora: Lendari
Ano: 2016
Páginas: 189
Minha avaliação: ✩✩✩✩✩
Mas Zoé não está interessada em fazer parte disso tudo, de ser uma peça no tabuleiro dos "Messias" e por isso só deseja conseguir se afastar da cidade com sua família e sobreviver nas matas escondidas do que resta do mundo.

Agora pegue tudo isso que eu disse e não jogue no lixo, mas descarte as expectativas quanto aos detalhes bobos que te fazem pensar que você terá uma narrativa cheia de ação e lutas e cenários de fases de videogame típicos das distopias que você conhece.

A realidade aqui é outra. Zoé está distante do cenário principal, num município longe da cidade grande, numa gruta, com um ferimento na perna, alguns itens restantes do seu kit de sobrevivência e uns bloquinhos de anotação onde ela narra os momentos que antecedem o seu fim.

Essa narrativa da menina Zoé poderia ser divertida e engraçadíssima se não fosse trágica. Acompanha-se desde o começo do livro a dor que ela sente, não só a física mas também a psicológica, a emocional.

"O que mais dói é o que chamo de espancamento emocional, é aquilo que está no meu íntimo e que resolveu vir à superfície. Não se trata apenas de mim, da minha perda e dor pessoal; vai muito além e pareço ter sido reprojetada, reconstruída e transformada num muro de lamentações de carne e ossos. 'O peso do mundo nos ombros' realmente de aplica agora."

Ouso dizer que Leila, a autora, fez nesse romance de estreia aquilo que muitas pessoas fazem com a gente: oferecem a mão aberta e, quando você está prestes a agarrá-la, a puxam de volta te deixando no vácuo e ainda te dão um tapa na cara.

Não sei se é um problema em mim, se sou sádico por achar isso, mas é: eu acho esse tipo de atitude bem incrível. E surpreendente, porque onde eu iria imaginar que sendo quem sou - um cara nada acostumado à literatura nacional - iria acabar vangloriando um livro escrito por uma conterrânea? É assim que a gente percebe o quanto não damos valor às coisas que temos bem debaixo dos nossos narizes - até o momento em que essa coisa desapareça e tudo o que você sinta seja a estranha perda daquilo que você nem sabia que tinha.

Não quero colocar palavras na boca de Zoé, mas acho que é assim que ela se sente. E por isso, ousado como sou, faço uma leve comparação a algo que a famosa Hazel Grace declarou sobre o seu autor favorito, e uso a mesma metáfora para ilustrar minha visão e admiração por Zoé: ela é a única que entende o que é estar morrendo sem ter morrido ainda.

Zoé fala dos pais, da melhor amiga, e até do garoto de quem ela gostava - que antes que pudesse ter algo com ela, a deixou e ficou com outra - com um grande pesar. Fala do momento horrível em que uma pequena parte humanidade atacada em vez de se juntar e procurar sobreviver aproveita seus momentos finais para se vingar de quem lhes fez mal. E fala, é claro, da dor da aceitação de que a vida é finita, de que o amanhã é incerto e de que - aqui uso suas próprias palavras - "Ter vida não significa mesmo viver". A guerra ilustrada na narrativa não representa só a física, a literal, a do fim do mundo, mas também aquela que travamos dentro de nós mesmos.

Não dá pra terminar isso aqui sem dizer o seguinte: se você se considera uma pessoa forte, que gosta de ler sobre tragédias e tem senso de humor, leia este livro e passe-o a frente para que outros também possam ler; e se você não se considera essa pessoa forte, se sofre por algo ou alguém e acredita que se ler esse livro você vai acabar mergulhando mais fundo na sua piscina da depressão, faça um favor a si mesmo e leia-o mesmo assim.

O futuro é a morte, o nosso fim acontece e a única coisa que importa é o que fazemos pra aproveitar a vida que nos resta antes que ele chegue.

"Pois é, quando não nos resta nada, a gente acaba tentando criar coisas para se apegar, para dizer que ainda tem algo apesar da verdade ser transparente: tudo foi levado."

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