sábado, 26 de novembro de 2016

DESGASTE

Eu estava no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo com uma amiga da faculdade e o relógio marcava 19h. O nosso voo de volta para Manaus sairia às 19h50, então ainda dava tempo de enrolarmos uns minutos antes de embarcar. Resolvemos ir comprar algo no Starbucks que era próximo ao nosso portão de embarque. Pedi uma bebida gelada de brigadeiro e ela um café. Queríamos pão de queijo para acompanhar, mas quando vi que o preço da porção custava 60 reais eu praticamente enlouqueci e resolvi que não compraria. Preço absurdo! O que tinha de tão especial nesse pão de queijo? Decidi procurar em outro estabelecimento, um café menos famoso, onde sabia que a porção não passava dos 20 reais. 

Eu conhecia praticamente nada do aeroporto, só da entrada até onde eu estava, perto do portão de embarque. Tinha passado por lá havia dois anos, quando fui passar dois dias na Bienal Internacional do Livro. Mesmo assim resolvi sair perguntando de quem encontrasse pelo caminho onde ficava o outro café. Mas ninguém sabia me dizer, nem mesmo uma funcionária do aeroporto. Continuei andando, resolvi descer um andar e procurar mais. Ainda havia tempo.

Andei, andei e nada de encontrar. Minha amiga ainda estava me esperando e logo teríamos que embarcar. Se eu demorasse mais, perderia o voo.

Olhando para todos os lados acabei encontrando uma prima que eu não via há alguns anos. Prima essa que tinha voltado a morar no interior, casado, tido filhos e tudo o mais, mas estava com a mesma aparência de quando a vi com quinze anos. Fiquei surpreso, nos cumprimentamos, e pedi que ela me acompanhasse na procura do maldito café que vendia os pães de queijo baratos. Parecia que a procura não acabava nunca e desisti e resolvi voltar para não perder o horário do avião. Faltava uns 10 minutos para o portão de embarque fechar, peguei a mão da minha prima e a puxei comigo, correndo, sem nem saber se ela iria para a mesma direção ou o que ela estava fazendo lá. E assim fomos.

Não demorou muito e percebi que estávamos perdidos. E quando olhei para o lado, minha prima havia sumido e no lugar dela, correndo comigo estava um cara grandão, do porte desses galãs de filme de ação. E eu desesperado disse a ele "Temos que voltar logo, senão vamos perder o voo!"

Descemos escadas, subimos escadas, e quando me dei conta, já nem estávamos mais dentro do aeroporto, naquele ar gelado de ar condicionado, e sim do lado de fora, numa rua com várias casas e bares onde havia muita festa e pessoas curtindo - mas ainda era o aeroporto. Eu só precisava fazer o caminho de volta imediatamente ou ficaria preso numa cidade onde não tinha nem contatos e nem dinheiro suficiente para outra passagem de avião. O desespero era aterrador. Mais escadas rolantes e elevadores e cenários que pareciam coisa de videogame e eu não encontrava o caminho de volta. O cara grandão ainda corria do meu lado e eu olhei para ele novamente e com grande pesar disse "Desculpa falhar, mas vamos conseguir. Deve ser por aqui.

Mais descidas. Uma escadaria circular, de pedra amarelada, com janelas de vidro transparente, e vi lá fora a pista de voo ao longe. Parecia que o aeroporto era muito maior do que pensei e tínhamos ido parar a quilômetros de distância de onde eu deveria estar. A essa altura eu já nem me lembrava mais da minha amiga, que ou ainda estava lá esperando a mim com os pães de queijo, seu café frio, ou já estava embarcando sem mim.

Depois de descer tanto, eu e o cara grandão achamos uma saída e nos vimos no subsolo de um dos estacionamentos do aeroporto. Mas não tinha como subir, sequer uma saída para pelo menos cometermos a loucura de entrar com um carro na pista de voo e segurar o avião. Coisa de filme! Só sei que vimos uma brecha no teto e, um ajudando o outro a subir, nos esgueiramos por essa passagem apertada para então nos vermos dentro de um carro, no andar de cima do estacionamento. Finalmente tínhamos como sair e pedir ajuda.

Mas não. O carro não ligava, porque não tinha chave dentro dele e nem tinha como abrir a porta pela maçaneta. Eu pedi desesperadamente do cara grandão que ele quebrasse a janela para sairmos e pedir ajuda de uma mulher que estava estacionando numa vaga logo atrás de nós. Ele quebrou o vidro, esmurrando-o com o cotovelo, e saímos e pedimos ajuda da mulher - que logo percebeu o nosso desespero e nos disse para entrar no carro que ela nos levaria até onde queríamos.

Era um carro pequeno, vermelho e parecia ter pouco espaço para mais duas pessoas. A mulher não era estranha, me lembrava alguém que eu já tinha visto antes - loura, um pouco gorda, já na faixa dos quarenta anos. Mas acho que isso é irrelevante agora. Porque eu senti que meu tempo tinha acabado e eu tinha falhado miseravelmente nessa luta contra ele. E ali mesmo, antes de entrar no carro, já chorando, sem nenhuma esperança, desisti de tentar voltar e embarcar, de voltar para casa.

E foi quando eu acordei.

Senti o meu corpo dolorido, como se tivesse realmente passado a noite correndo. A cabeça parecia pesar uma tonelada e eu estava com aquele princípio de dor de cabeça causado por muita claridade que sei que dura o dia inteiro até eu dormir de novo e descansar. Eu estava exausto, e tonto. Foi tudo muito real.

Quando levantei da cama e comecei a pensar no que diabos tinha sido aquilo, não demorei até chegar a uma conclusão. Tive a opção de simplesmente tomar minha bebida na companhia da minha amiga e logo depois embarcar, sem o pão de queijo; ou poderia ter comprado a porção mais cara, pois eu tinha dinheiro de sobra. Eram opções seguras, mas me atrevi a procurar por outra num lugar que eu mal conhecia. Me arrisquei cegamente, acreditando que tinha tudo sob controle. Corri, corri, desisti e acabei acordando pra vida real cansado e sem aquilo pelo qual eu tanto procurei. Uma péssima noite de sono que me lembrou do que minha avó costumava dizer: o barato sai caro.

É claro que às vezes devemos arriscar e sair das nossas zonas de conforto. Mas dessa vez imagino que meu inconsciente me disse para parar de me desgastar tanto correndo atrás de coisas que no fundo sei que não estão ao meu alcance.

Foto: Arquivo pessoal.

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