sábado, 19 de novembro de 2016

CULPA

Não é a primeira vez, nem a segunda, e creio que nem será a última vez em que tenho um momento desses. Durante o banho eu não sou a pessoa que frequentemente transforma o chuveiro em microfone e faz o próprio show particular onde se é a maior estrela pop da mídia da atualidade. Sim, eu canto, mas não é sempre. 

O negócio comigo é bem mais estranho que isso porque, em vez de seguir a regrinha esperada, durante o banho da noite meu cérebro, às vezes, parece funcionar muito melhor do que nas outras horas do dia. Na minha cabeça vem ideias que podem ser de coisas que eu possa fazer facilmente para vender e conseguir um dinheirinho extra, ou lembranças de coisas importantes esquecidas (como, por exemplo, de minha mãe ter falado de manhã que era para eu tirar o frango da geladeira à tarde para ela preparar quando chegar de noite; ou que, na semana passada, prometi de enviar por e-mail um arquivo para uma colega de classe da faculdade), ou lembranças de conversas que eu tive e as melhores respostas que eu poderia ter dado, coisas desse tipo. É um dos momentos mais produtivos do dia, onde eu tenho também tenho o que rotulo de epifanias.

e.pi.fa.ni.a s. f. REL 1 aparecimento ou manifestação divina 2 celebração cristã da aparição de Cristo

Mas, calma aí, essa definição é a do meu dicionário obsoleto e não é a que quero empregar aqui. O coleguinha Wikipédia diz que "Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo". Minhas epifanias nada tem a ver com Cristo, com religião ou com o divino. A não ser, talvez, que eu distorça o significado do dicionário e diga que o divino nisso tudo é o fato de minha mente não tão brilhante ter chegado num ponto de compreensão de algo que até então eu não via.

Eu nem sei exatamente o que fez tudo isso surgir, mas quando surgiu lá estava eu, ontem à noite, com a cabeça à mil pensando em erros e atribuição de culpa. 

Lembra de quando era mais jovem, talvez aos sete anos, da vez em que sua mãe e sua tia resolveram visitar a casa de uma amiga e levaram você e seu primo juntos para se entreterem enquanto os mais velhos colocavam o papo em dia? Na ocasião, você e o primo logo viram que não havia absolutamente nada para fazer além de brincar de apostar corrida, para ver quem é o mais rápido. Crianças simplesmente adoram correr. Até que numa das corridinhas, do pátio para a sala da casa da amiga das mamães, você e seu primo, lado a lado, se empurrando para passar pela porta, esbarraram na estante que tinha ali do lado e lá de cima derrubaram um vaso de cerâmica muito bonito de valor sentimental inestimável que a amiga tinha ganhado há muito tempo. O vaso caiu no chão e se espatifou e, de repente, com o susto do barulho, a brincadeira cessou e você e seu primo ficaram chocados e sem saber o que fazer além de olhar desconcertados para suas respectivas mães e sentir uma grande culpa e humilhação. Mas, logo em seguida, depois de encarar a dona da casa e as mães, tudo o que você fez foi apontar o dedo para o primo e dizer "Não fui eu, foi culpa dele".

Lembra também daquela vez em que você estava no ponto esperando seu ônibus passar para ir a um compromisso com hora marcada? Você tinha quatro opções de transporte para pegar, sendo que duas delas faziam um caminho um pouco mais longo e as outras um mais curto. Em dez minutos passaram dois ônibus que você poderia ter pegado, mas eles eram os que faziam o caminho mais longo e você tinha certeza de que, se esperasse mais um pouquinho, logo viriam as outras opções mais rápidas. Só que isso não aconteceu e você ficou lá durante cinquenta minutos até passar um dos ônibus que você queria e acabou chegando bem atrasado para o compromisso. Durante o caminho você já ia reclamando silenciosamente da velocidade que o transporte ia, e ao chegar no destino logo jogou a culpa do atraso em cima do motorista - que nada tinha a ver com quem estava te esperando.

Okay, onde quero chegar? 

Não que eu seja algum santo e queira dizer que nunca culpo ninguém de nada. Pelo contrário, sei que, por mais que eu tente, sempre tem uns momentos de egoísmo em que quero tirar o meu da reta e deixar o balde de água fria cair em cima de outra pessoa para eu não ter de lidar com todo o processo de me enxugar.

Existem acontecimentos na vida que estão fora do nosso controle a partir do momento em que acontecem. O problema é que quando essas coisas se desenrolam, é possível perder muito tempo analisando tudo, cada segundo antes do ocorrido, para achar a brecha que vai caber o seu dedo e você poder dizer "Okay, foi isso aqui, então eu não tenho culpa. Agora posso dormir tranquilamente".

Se arrepender tá permitido. Acredito que seja normal se arrepender e chorar sobre o leite derramado. Faz parte do processo de negação. Mas o que não tá permitido é apontar o dedo. 

Mas o importante disso tudo, a minha súbita sensação de entendimento, foi quando me fiz a seguinte pergunta: Como vou poder dizer que eu fiz, que vivi, que causei isso, se em todas as vezes eu atribuir a culpa a alguém que não a mim mesmo? 

No ensino médio eu mal prestava atenção às aulas de filosofia (não que tenha sido grande perda...). Já na faculdade, no primeiro semestre, na disciplina de Introdução à Filosofia, um professor maravilhoso me fez despertar o interesse pelo existencialismo de Jean-Paul Sartre. Sobre liberdade o filósofo diz que, para tudo, todos nós temos opções de escolha, e que até mesmo quando escolhemos não escolher estamos escolhendo esse não escolher. Entende? 

É claro que a moral disso não é se culpar por absolutamente tudo que acontece à nossa volta. Às vezes coisas fora do nosso controle acontecem. Mas daí, voltando para minha pergunta acima, fiquei pensando que viver tem a ver com isso - que é ter um respaldo próprio dos acontecimentos que causamos a nós mesmos. Que apontar o dedo acaba invalidando os nossos atos quando sabemos que podíamos ter escolhido diferente. Porque, se não fui eu quem fez, como vou poder evitar o erro novamente no futuro, se eu não o vivi?

Em ambos os casos ilustrados anteriormente havia a possibilidade de escolhas diferentes: não correr para dentro da sala da amiga da mamãe, ou simplesmente não brincar de correr; assim como pegar a primeira opção de ônibus e chegar alguns minutinhos atrasado em vez de esperar a outra opção e se atrasar muito mais.

No geral, tudo fica mais fácil quando a gente aceita que o que passou já passou. E que sem nossa tentativa e erro não dá pra sair do lugar.

Foto: Arquivo pessoal.

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