terça-feira, 28 de janeiro de 2014

CONTEÚDO BÔNUS: THE WHITE QUEEN - Philippa Gregory

O conteúdo desta postagem foi retirado do livro 'The White Queen', da autora Philippa Gregory, e traduzido de forma independente. O uso desta tradução deve ser creditado a este blog.

NOTA DA AUTORA

Philippa Gregory by Santi U
Este novo romance, o primeiro de uma série sobre os Plantagenets, surgiu da minha descoberta sobre uma das mais instigantes e interessantes rainhas da Inglaterra: Elizabeth Woodville. A maior parte da história que conto aqui é composta de fatos, e não ficção - ela viveu longe bastante até da minha imaginação! Ela de fato era uma linda e famosa descendente dos Duques de Burgundy, que acreditavam ser descendentes de Melusina, a deusa-água. Quando descobri este fato eu percebi que em Elizabeth Woodville, uma rainha indesejada, eu poderia reescrever a história de uma rainha da Rainha da Inglaterra que era descendente de uma deusa e foi acusada de bruxaria.

Dado meu interesse próprio pela visão medieval da magia, do que isso diz sobre o poder das mulheres, e o preconceito que havia para com mulheres poderosas, eu soube que este seria um terreno rico para mim como pesquisadora e escritora - e assim foi.


Sabemos que Elizabeth encontrou Edward pela primeira vez com um pedido de ajuda financeira, e que ela se casou com ele em segredo, mas seu encontro à beira da estrada, debaixo de um grande carvalho (que ainda hoje cresce em Grafton Regis, Northamptonshire) é uma lenda popular e pode e não pode ser verdade. O ato dela desembanhar a adaga dele para se salvar de um estupro foi um rumor contemporâneo; não sabemos se foi um fato histórico. Mas grande parte de sua vida com Edward foi bem documentada, e eu tenho atraído estas histórias e baseado meu livro nos fatos que existem. É claro que, às vezes tenho de escolher entre versões antagonistas e contraditórias, e às vezes tenho de preencher lacunas da História com explicações da minha própria invenção.

Há mais ficção neste livro do que nos meus anteriores, já que estamos mais no passado do que com os Tudors, e os registros são mais incertos. Inclusive, este foi um país em guerra e muitas decisões foram tomadas precipitadamente, não deixando nada para se registrar. Algumas das decisões mais importantes eram feitas em conspirações secretas e frequentemente eu tinha de deduzir da evidência sobrevivente as razões para ações particulares, ou mesmo o que aconteceu. Por exemplo, não temos evidências confiáveis de que realmente houve a 'Conspiração Buckingham', mas sabemos que Lady Margaret Stanley, seu filho Henry Tudor, Elizabeth Woodville, e o Duque de Buckingham eram os principais líderes de uma rebelião contra Richard. Obviamente, cada um tinha razões diferentes para os riscos que estavam tomando. Temos algumas evidências intermediárias e alguma ideia de qual eram os planos, mas a estratégia exata e a estrutura do comando da maquinação é um segredo até hoje. Pesquisei nas evidências restantes nas consequências da trama e mostro aqui como tudo deve ter sido construído. O elemento sobrenatural da tempestade de chuva é, claro, ficção e foi uma grande diversão imaginar.

Janet McTeer e Rebecca Ferguson como Jacquetta e Elizabeth Woodville
na adaptação dos livros de Gregory que foi ao ar pela BBC One.
Igualmente, não sabemos, até mesmo agora (depois de centenas de teorias), exatamente o que aconteceu com os príncipes na Torre. Eu especulo que Elizabeth Woodville teria preparado um porto seguro para seu segundo filho, Príncipe Richard, depois que seu primeiro filho, Príncipe Edward, foi levado. Eu duvido muito que ela teria mandado seu segundo filho para as mãos do homem que ela suspeitava ter encarcerado o primeiro. A sugestão de que muitos historiadores acreditam que Príncipe Richard tenha sobrevivido, me levou a especular que ela jamais o teria mandado para a Torre, mas usado um substituto em seu lugar. Mas eu tenho de alertá-los de que não há nenhuma evidência que comprove isso.

Novamente, não há evidência definitiva sobre como os meninos morreram, se eles morreram; nem quem deu a ordem, e é claro, ainda não há corpos identificados positivamente como os dos príncipes. Eu acredito que o Rei Richard não teria matado os meninos, já que haveria pouco ganho e muito que se perder; e eu não acredito que Elizabeth teria deixado suas filhas a seus cuidados se ela tivesse pensado que ele teria assassinado seus filhos. Parece ainda que ela teria chamado seu filho Thomas Grey da corte de Henry Tudor, que possivelmente indica que ela estava desencantada com a reivindicação de Tudor, e se aliou com Richard. Todos estes restos são um grande mistério e eu simplesmente adiciono minhas especulações à infinitas outras que historiadores têm feito, algumas das quais você pode achar em livros citados na bibliografia.

Estou em dívida com o Professor David Baldwin, autor de Elizabeth Woodville: Mother of the princes in the Tower, tanto por sua interpretação e compreensão clara da rainha em seu livro, quanto pelo seu conselho neste romance, e sou grata também aos muitos historiadores e entusiastas cujos estudos são baseados no amor por este período histórico, o qual agora compartilho e espero que você também.

Mais informações sobre a pesquisa e escrita deste livro pode ser acessada no meu website, PhilippaGregory.com, onde há também detalhes sobre seminários deste livro que estarei fazendo num tour pelo Reino Unido, Estados Unidos e mundialmente, assim como webcasts regulares.


PHILIPPA GREGORY ESCREVE SOBRE MELUSINA

Um grande número de leitores têm se mostrado curiosos a respeito da lenda de Melusina, a deusa da água, cuja lenda eu recontei e entrelacei com esta história de Elizabeth Woodville, sua descendente. Continue lendo para saber mais sobre este mito assombroso.

Estórias sobre Melusina são contadas em muitos países, em várias formas, do oeste Celta da Europa à Alemanha e países do norte. Há ainda algumas versões nativo-americanas da estória de uma mulher metade peixe que tenta se tornar mortal por amor a um homem. Reescrita, ela aparece em contos de fada dos Irmãos Grimm, e na estória da Pequena Sereia de Hans Christian Anderson (e na Disney!); e na lenda de Undine ou Ondine, ela aparece no baralho de Tarô e dança uma balada de mesmo nome.

Rebecca Ferguson e Max Irons
como Elizabeth Woodville e Rei Edward IV.
Sua estoria é bem parecida com a que Elizabeth Woodville conta neste romance. Uma garota, filha legítima da fada da água, se encontra com um cavaleiro na floresta (famílias diferentes e florestas diferentes são usadas em diferentes partes da Europa) e eles concordam em se casar; mas ela impõe que haja algumas restrições para vê-la. Depois de um cerimônia feliz como mortal e de ter uma criança, o marido quebra o contrato e vê que ela tem o corpo de uma serpente, ou peixe. Em algumas versões ela sabe imediatamente que ele a viu e vai embora. Em outras, ele finge não saber, mas a verdade acaba vindo à tona quando seus filhos monstruoso matam um ao outro. Em algumas versões ele morre sem ela; em outras ele vive em mágoa, ou ela assombra a casa em que eles eram felizes. As vezes ela é vingativa, outras desolada. Nas versões reescritas ele a deixa, preferindo uma mulher mortal, e numa antiga versão ela estende sua cauda gigante através do teto do seu banquete de casamento. Na Irlanda, Melusina é um espírito na forma de uma mulher suplicante que aparece ou é ouvida por membros de uma família como um sinal de morte. Na França, ela é uma das Dames Blanches, uma Senhora Branca que assombra florestas e engana mortais com enigmas e danças, e prevê mortes através de choro fora de casas. Na Alemanha, ela é um ser da floresta e da água.

As origens de Melusina são antigas. Lendas de mulher da água e sirenas são citadas em Homero; desenhos de sereias são encontrados no Egito antigo e na Assíria. O folclorista S. Baring-Gould sugere que Melusina poderia ser uma versão Celta de uma lenda ainda mais antiga. Ela sobrevive, até hoje, em estórias em torno de nascentes e poços que agora são designado como sítios Cristãos. Sem se deixar abater por santificação, ela é renomeada como 'Santa Melusina', em Bärigen, Alemanha, onde jogam migalhas do banquete véspera de Natal em arbustos para que Melusina pode comer. (D.L. Ashliman em http://www.pitt.edu/~dash/melusina.html)

A lenda foi colocada no papel primeiramente em 1393 (Jean d'Arras, La Noble Hystoire de Luzigen) como parte da história do Château Lusignan, a casa que dizem Melusina ter construído para seu marido. Ela é frequentemente descrita como uma mestre das obras: ela podia construir uma casa numa única noite com um exército de fadas operárias. Mas as construções sempre tinham falhas, assim como suas crianças eram sempre disformes. As ruinhas de seu chateau podem ser visitadas hoje na França, nos arredores de Poitiers, onde uma estátua de seu filho monstruoso tem vista sobre o rio Vonne. A presença da deusa é tão conhecida e aceita que você pode dar uma volta pelas ruinhas de seu chateau e depois comer uma pizza na Pizzaria Melusina na praça da cidade.

O significado de Melusina vai mais longe ainda do que apenas folclore. O psicanalista C. G. Jung se interessou pelo seu papel na alquimia. Melusina é uma manifestação de Luna - o elemento da escuridão, frio, água, e espírito, e como tal, ela faz a união alquímica com seu oposto: Sol, a fonte de calor e luz. A união é conhecida por alquimistas como 'casamento químico' que significa para Jung a união do corpo e espírito, consciência e inconsciência.

Não fingirei que entendo este trecho num nível de admiração mas devo admitir ter ficado um pouco chocada quando li as palavras: "Luna e Sol frequentemente aparecem como Rainha Branca e Rei Vermelho" um ano depois de ter finalizado meu livro sobre a descendente de Melusina e o intitulado como The White Queen (N.T.: A Rainha Branca). O site na internet (http://members.tripod.com/~nysticorax/coniunctio.html) cita: '...note estas cores correspondem os estágios de transmutação; o símbolo deste relacionamento é a rosa.' A rosa, de fato, era como as pessoas chamavam o neto de Elizabeth, Arthur: 'a rosa da Inglaterra'.

Ferguson e Irons em The White Queen da BBC One.
Me deparei com o mito de Melusina bem cedo na minha pesquisa para The White Queen quando procurava por um elemento na história de Elizabeth, ou na de seus pais, para me ajudar imaginá-la. A descoberta de que Jacquetta traçava sua descendência pelo mito de Melusina foi tremendamente excitante para mim e me levou a pesquisar sobre o mito e até mesmo visitar o Chateau Lusignan perto de Poitiers, França, o qual diziam que Melusina havia construído. A sugestão que faço no romance de que Jacquetta acreditava na sua descendência inusitada é um grande elemento. Certamente, ela acreditava em bruxaria e foi, de fato, capturada, sentenciada e considerada culpada da prática de magia. A evidência usada contra ela consistia em pequenas figuras amarradas com um fio que uma testemunha alegava que Jacquetta havia usado para um feitiço. Ela foi inclusive culpada durante toda sua vida por ter arquitetado o casamento inesperado de rei com sua filha. As cenas que criei de Elizabeth invocando a névoa, assoviando para o vento e convocando chuva são todas fruto de minha imaginação, mas para mim elas pareciam ser o que ela faria em tais circunstâncias - especialmente se alguém acreditava que funcionaria! Num mundo em que havia pouco da ciência, havia fé na magia e confiança no que agora chamamos de superstição. É difícil agora imaginarmos, mas o mundo medieval era absolutamente convencido por explicações mágicas e alquímicas. A lenda de Melusina teria sido considerada como uma poderosa metáfora que dizia certas verdades sobre a história da família. Pode inclusive ter sido considerada totalmente verdadeira.

Minha recontagem da estória de Melusina através deste romance se desenvolveu uma vez que a narração fluía, e tornou a significar para mim a dificuldade que as mulheres tinham em viver num mundos dos homens - quase como se fôssemos seres de outro elemento: Ela sabia que ser uma mulher mortal é difícil para o coração, para os pés. Ela sabia que precisaria ficar sozinha na água, debaixo d'água, as ondas refletindo em sua cauda escamosa de vez em quando. Ele a prometeu que lhe daria tudo, tudo o que ela quisesse, como homens apaixonados sempre fazem. E ela confiou nele apesar de tudo, como mulheres apaixonadas sempre fazem.

A conexão entre um poderoso arquétipo e meu romance tem sido inspiradora e às vezes esmagadora. Quando leio sobre a lenda de Melusina, sobre a casa que ela construiu com sua falha fatal, e seus filhos que não podiam sobreviver, eu penso em Elizabeth Woodville e a casa York que foi construída mas não pôde durar; e em seus filhos perdidos. Enquanto escrevia este livro, achei elementos da história, os quais podia pesquisar, e alguns ficção, os quais podia criar, e além destes, alguns mistérios profundos, os quais, se eu escutar e esperar, e tiver sorte, podem vir até mim.

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